A primeira lembrança que tenho desde que nasci é das piores que poderia ter.
e por muito que hoje considere essas lembranças como passadas, ainda hoje penso
nisso.
Para chegar até aqui eu
lutei muito, ainda não cheguei à vitória, mas quem disse que a minha meta é
mesmo essa?
Toda a minha vida eu tive
um objetivo: chegar lá. Mas o que realmente isso quer dizer? Não sei. Vivi
sempre perdida num mundo aparte, inventei sonhos para me desviar da realidade
em que nasci, e mesmo assim não foi o suficiente. A decisão de pedir ajuda
levou anos e apenas quando me encontrei num limite insuportável. Eu tinha tudo,
mas mesmo assim não me sentia bem, eu tinha amigos, mas não me enquadrava, tudo
me irritava e explodia à mínima coisa que me ofendesse. E de repente, a culpa
já não era dos outros, mas sim apenas minha. Seria verdade? Era eu a culpada?
Claro que não, a culpa estava neles.
Eu era aquela menina, uma
bonequinha linda de cabelos encaracolados castanhos. Eu não sorria muito, era
conhecida como uma menina triste. Já nessa altura era difícil para mim ter
amigos, todos eles faziam-me sentir fora do círculo. Eu sentia-me diferente. Na
escola não falava com ninguém, mas também não me fazia falta. Em casa aa coisas
eram ainda piores.
A minha mãe trabalhava
durante o dia e algumas horas de noite para ajudar com as despesas da casa. O
meu pai? Eu não costumo pensar nele como um pai, mas como um monstro que chega
de noite à nossa cama e tira todas as ilusões que uma criança deve ter. Não me
vou referir a ele como um homem, mas como uma vez alguém me disse: um assassino
de crianças.
E quando bebia? Então era
nesses dias que sonhava em ter forças e fazer frente.
Acabei por crescer assim
nas mãos de assassinos que me tiraram a infância e a minha adolescência. Eu
sofri, levei pancadas quando não merecia e fui humilhada. Com essas marcas eu
aprendo agora a levar a minha voz alto, sem vergonhas e hoje sou aquela
mulher. Aquela mulher de cabelos vermelhos, aquela menina que ninguém
viu crescer.
E agora quem
sou eu, hoje em dia?
Eu sou aquela de cabelos
vermelhos que se tornou independente, eu sou eu, cada vez mais forte. Amo moda
vintage sou viciada em maquiagem. Adoro fazer compras e especialmente adoro
fazer as pessoas que me rodeiam felizes. Por mim choviam presentes a toda a
hora para aqueles que eu amo. E quem sabe se um dia isso não será possível?
Tive a sorte de encontrar
pessoas que me mostraram como é bom viver, que vale a pena tombar e levantar
tantas vezes que a cada tombo eu aprendo um pouco mais. Toda a ajuda que
consegui foi bem-vinda e necessária. E ainda hoje tenho essa ajuda. Foi o
melhor que me aconteceu. O melhor de mim ainda está por vir.
Eu não posso dizer que
acredito que tudo o que começa tem um fim. O meu passado fica para lá, mas o
que aprendi com isso não. As marcas ficam, mas as forças que retiro delas crescem
cada vez mais. Então não, nem tudo tem um fim. E a minha marca vai continuar
aqui mesmo depois de eu partir.
P.S: Pessoalmente sou
tímida. Ou não? Não, sou uma tola assumida.