quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Um café da minha máquina nespresso

 

Eu nem sei por onde começar. Foram 39 semanas de gravidez, seguido de tentativas de parto normal falhadas e acabou com uma cesariana de urgência.

Sabem aqueles filmes em que ela toda linda, puxa por dois ou três minutos e bum, temos bebé? Pois, não foi nada assim. Nada é como nos filmes, absolutamente nada.

Eu sofri, mesmo com epidural, que não fez o seu trabalho como devia, ainda puxei por mais de três horas sem um fim a vista. Quando finalmente viram que estava exausta, decidiram que a cesariana era a melhor solução. O bebé estava numa posição complicada, então nunca seria possível um parto normal.

Foi uma gravidez desejada com efeitos secundários dolorosos.

Devido a problemas de tensões, fiquei em repouso logo de início. Tudo bem, acontece.

Foram semanas sem saber o que fazer, uma simples caminhada tornava-se num pesadelo ao fim do dia. Acabei em risco de parto prematuro. As 39 semanas, eles decidiram que não podia esperar mais e arriscaram com a provocação do parto. No fim, todo o sofrimento compensou.

O Matias nasceu a 25 de setembro, as 5:29 da madrugada. 49cm e 2,970kg.

Perfeitinho, saudável e lindo.

Não é por ser meu, mas é um bebé tão lindo que derrete qualquer pessoa.

Logo no primeiro mês de vida percebi que vai ter um caracter forte, é o que faz ter um pai e uma mãe de personalidades complicadas. Vem aí um guerreiro!

Estas noites sem dormir, estas refeições não acabadas e o meu cabelo bagunçado, são apenas parte de algo que nunca pensei que fosse adorar. O meu mundo está neste ser pequenino tão doce que nem me imagino noutra vida.

Basta um sorriso, e eu fico completamente K.O.

 Esta experiência de ser mãe pela primeira vez é como se perdesse tudo, mas ao mesmo tempo ganhei algo que nunca pensei ter. Eu tenho o mundo nos meus braços.

Todo aquele tempo para mim, as minhas horas de sono perdidas e aquele silêncio na casa que já não existe mais, não me incomoda nem um pouco. Claro que, sair para jantar e relaxar um pouco fazem-me falta. Mas não podemos ter tudo certo?

Por um lado, o que me faz falta por vezes deixa-me frustrada, mas por outro, quero lá saber!

No fim, somos as supermães que nunca tivemos e as mulheres que suportam tudo de cabeça erguida.

 

 Ainda assim, incompreendidas pela sociedade.

 

Temos um papel a desempenhar, nada mais. É surpreendente, como nos tempos em que vivemos ainda existem mentes pequeninas que vêm a mulher ainda sem voto. A mulher trabalha, cuida da casa, cozinha e educa os filhos. O marido, trabalha, acima disso trabalha mais um pouco e no fim vai relaxar mais os amigos.

Quando é que nós, mulheres e mães, podemos relaxar com as amigas até as 2h da manhã despreocupadas com quem precisa de nós? Porque, até que podemos, nada nos impede. Mas ninguém conhece os nossos filhos tão bem como nós. E deixá-los assim, mesmo que por algumas horas, é sentir que temos o coração nas mãos.

E ainda me dizem: é tão difícil ser homem!

Sim, também é verdade. O homem nasceu na sociedade como aquele que sustenta casa, que financeiramente arranja solução para tudo e vive com o peso nas costas de que, se a casa não se mantém, então temos um falhado á vista.

Perder a masculinidade não deve ser fácil, mas isso não é desculpa para diminuir o papel da mulher.

Porque a gente faz o que nos compete e ainda ficamos em casa a espera de quem nunca chega. Para no fim ouvirmos que quem trabalha muito merece relaxar nem que seja por meia hora.

Onde está o nosso tempo de relaxar então? Está naquele minuto em que podemos ir a casa de banho? Está naquela pausa de dois minutos em que podemos tomar um cafezinho da nossa máquina Nespresso? Ou quando ele finalmente adormece e podemos ler um pouco daquele capítulo daquele romance que ainda vai a meio e, por razoes que só a nós compete, nunca teremos oportunidade de acabar porque o cansaço é mais forte e adormecemos para no dia seguinte repetirmos tudo de novo?

Não, longe de mim questionar a liberdade e o esforço masculino desta sociedade tão pequena!

Podíamos ser grandes, e não valemos nenhum!

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