«O pôr a mão é normal.”
“O pôr a
mão não tem mal nenhum.”
“Porque
tu és muito bonita.”
“Eu posso fazer-te feliz, só tens que me deixar.”
De todas
as vezes que chorava e implorava para ele parar, as desculpas eram sempre as
mesmas. Como se fosse fácil de entender o porquê de acontecer comigo o que
outro já me tinha feito. Tinha de haver um motivo para sofrer nas mãos de
homens certo? Porquê eu?
Depois
que o meu pai foi preso, os abusos por parte de outro homem começaram. Quando
eu achei que ia ser livre, vi-me de novo em situações semelhantes e piores que
antes. Tentava fugir sempre que podia, mas nem sempre era fácil.
Estes
dias de chuva despoletaram em mim memórias dolorosas.
Perguntas
que eu faço a mim mesma e eu sei bem a resposta para elas. Neguei a mim mesma
durante anos que não eram abusos e só tinha que me esconder sempre que ele me
procurava. Resultou? Não. Chegou a um ponto em que tive de admitir a mim mesma
e aos meus mais próximos que ainda tinha muito que resolver. Na altura ainda
era uma criança e os abusos duraram a maior parte da minha adolescência. Escondi
o melhor que pude, para alguns eu era uma menina triste por causa do meu pai pedófilo,
para outros uma tímida, e houve quem pensasse que era uma criança normal sem
memorias de nada.
Quem
raios pode dizer que uma criança se esquece dos abusos que sofreu? Pois é, eu
ouvi essa muitas vezes. Que eu era muito nova e não me iria lembrar de nada quando
crescesse.
Mas eu
lembro-me, e cada vez mais me recordo de coisas que por vezes deixam-me cansada
e confusa. Tenho raiva de alguns. Uma mágoa tão grande que me cega por vezes. Uma
criança deve ser protegida e não atirada aos lobos. Uma criança deve ser ouvida
e não mandada calar porque os adultos já têm problemas que chegue. E eu quis
tanto falar e nunca me deixaram.
Tudo
bem, eu falo agora. E quem não gostar de ouvir, problema deles. Porque agora eu
não sou mais a menina calma que faz tudo o que outros querem, que se cala e
consente quando é humilhada ou leva pancadas por derramar um pouco de azeite
nas calças. Ou então, para ser mais agressiva, dura e cruel, que se deixou ser
usada para o bem dos adultos ignorantes.
É tão fácil
uma criança ser abusada e humilhada e ninguém dar por isso. Mas não é normal. Não
é normal sofrer, seja psicologicamente ou fisicamente. O que uma criança sofre
molda os seus comportamentos e escolhas no futuro. Eu passei 30 anos com ideias
erradas e calada por achar que tudo era normal. Que um dia iria passar e eu
iria esquecer.
Não passa
e não se esquece.
Então nunca
digam a uma criança que ela é nova demais e que vai esquecer. Porque no futuro
quando ela se lembrar, o karma acontece e vai cuspir na cara daqueles que a
ignoraram e punir a mão que lhe bateu.