Desde nova que penso
nisso. Ou pensava, ou ainda penso. Ainda não sei.
O que me fazia ponderar o suicídio?
Sempre que as coisas pioravam para mim, a minha única saída
seria morrer. Ao recordar aqueles tempos, eu ainda compreendo o porquê de achar
que seria a solução. Todos conseguem aconselhar, e falar vai ser sempre mais fácil
do que agir. Só por quem lá passa é que sabe.
É que sabe o que é desejar morrer na hora daquele toque indesejável,
congelar e esperar que acabe rápido e que não seja pior que da última vez que
ele cá veio tirar o seu prazer e acabar com os meus sonhos de um conto de
fadas.
É que sabe o que é ser humilhada pelos próprios da casa e
esconder uma depressão para que esta não seja mais um motivo de risota.
Para falar mesmo a verdade, eu ainda pondero.
Estou a caminho de fazer dois anos que tomo
antidepressivos. O que impede de deixar é sempre a mesma pergunta que a médica
me faz: Serei eu capaz de fazer frente a uma situação tão horrenda que não
acabe comigo a cometer o que toda a vida pensei em fazer?
A medicação impede-me de ir aos extremos e acalma-me. Digo
que quero deixar, mas face a situações recentes, talvez não seja a hora.
Eu tenho um humor muito negro, capaz de pôr pessoas
assustadas e chocadas. A mim não me assusta, a ideia de morrer não me assusta.
Eu gosto de viver, eu adoro a vida que tenho, mas uma parte
escondida pondera.
Naqueles tempos, escondi medicação para tomar quando
chegasse a hora de ir. Quando achasse que não havia mais saída.
Agora essa medicação anda comigo todos os dias.
A dor, aquela que não se sente mas está lá nos meus
olhos, continua adormecida. Se eu quero morrer neste momento exato? Não. Mas toda
a hora carrego essa questão.
Depressão é mesmo assim, é ver que estamos bem e nunca
achar que estamos doentes. Olhas para mim e vês que eu ainda estou lá, na
normalidade dos dias humanos. E volto a dizer, só quem por lá passa é que sabe.
E chegar ao dia em que eu já lá não estou e ficas a perguntar o que raio não viste,
o que raio faz uma pessoa cometer suicídio se tudo
parecia bem.
E lá esta, tudo parecia bem.
E vamos culpar quem? Tu, que não viste nem sabias de
nada? Claro que não.
A mim? Que suportei e aguentei até ao limite? Muito menos
a mim.
Vamos culpar os monstros debaixo da cama. Os monstros que
se escondem nos armários e que de noite atormentam. Vamos culpar a mão que
insistiu em te bater. Vamos culpar a boca que adorou insultar-te. Humilhar-te,
espancar-te até quase te matar.
Eles aceitam a culpa? Não. Na boca deles, nada fizeram.
Eu preciso que eles admitam, que digam da mesma maneira
que adoram mostrar a cara ao mundo como se fossem muito bonitos e dignos de
respeito.
Mas não o fazem e nunca o vão fazer.
Uma nota para vocês: O que plantaste é o que estás a
colher neste momento.
Tantas vezes digo isso, e nunca foi tão verdade.
A dor que eu carrego hoje teve raízes vindas de muitas direções,
aos poucos eu vou cortando. E eu, sendo eu, vou cortando até que lhes doa na
alma.
Eu vou aprendendo que, se antes não houve compaixão, então
eu não lhes devo nada. A minha vida segue em frente, sempre com a questão aos
ombros.
Uma questão que ainda não tenho a resposta, a morte ainda
espreita e seduz.
A depressão é aquela que se esconde, nos cantinhos da
sombra. A sombra escura capaz de ser camuflada. A pontinha da escuridão que te
toca no ombro quando escondes uma lágrima. E quando dás por ti, a sombra é a
tua melhor amiga, a tua única companhia. E tira tudo de ti, tudo.