domingo, 29 de outubro de 2023

A depressão, a Dor e a Morte

 

Desde nova que penso nisso. Ou pensava, ou ainda penso. Ainda não sei.

O que me fazia ponderar o suicídio?

Sempre que as coisas pioravam para mim, a minha única saída seria morrer. Ao recordar aqueles tempos, eu ainda compreendo o porquê de achar que seria a solução. Todos conseguem aconselhar, e falar vai ser sempre mais fácil do que agir. Só por quem lá passa é que sabe.

É que sabe o que é desejar morrer na hora daquele toque indesejável, congelar e esperar que acabe rápido e que não seja pior que da última vez que ele cá veio tirar o seu prazer e acabar com os meus sonhos de um conto de fadas.

É que sabe o que é ser humilhada pelos próprios da casa e esconder uma depressão para que esta não seja mais um motivo de risota.

Para falar mesmo a verdade, eu ainda pondero.

 

Estou a caminho de fazer dois anos que tomo antidepressivos. O que impede de deixar é sempre a mesma pergunta que a médica me faz: Serei eu capaz de fazer frente a uma situação tão horrenda que não acabe comigo a cometer o que toda a vida pensei em fazer?

A medicação impede-me de ir aos extremos e acalma-me. Digo que quero deixar, mas face a situações recentes, talvez não seja a hora.

Eu tenho um humor muito negro, capaz de pôr pessoas assustadas e chocadas. A mim não me assusta, a ideia de morrer não me assusta.

Eu gosto de viver, eu adoro a vida que tenho, mas uma parte escondida pondera.

Naqueles tempos, escondi medicação para tomar quando chegasse a hora de ir. Quando achasse que não havia mais saída.

Agora essa medicação anda comigo todos os dias.

A dor, aquela que não se sente mas está lá nos meus olhos, continua adormecida. Se eu quero morrer neste momento exato? Não. Mas toda a hora carrego essa questão.  

Depressão é mesmo assim, é ver que estamos bem e nunca achar que estamos doentes. Olhas para mim e vês que eu ainda estou lá, na normalidade dos dias humanos. E volto a dizer, só quem por lá passa é que sabe. E chegar ao dia em que eu já lá não estou e ficas a perguntar o que raio não viste, o que raio faz uma pessoa cometer suicídio se tudo parecia bem.

E lá esta, tudo parecia bem.

E vamos culpar quem? Tu, que não viste nem sabias de nada? Claro que não.

A mim? Que suportei e aguentei até ao limite? Muito menos a mim.

Vamos culpar os monstros debaixo da cama. Os monstros que se escondem nos armários e que de noite atormentam. Vamos culpar a mão que insistiu em te bater. Vamos culpar a boca que adorou insultar-te. Humilhar-te, espancar-te até quase te matar.

Eles aceitam a culpa? Não. Na boca deles, nada fizeram.

Eu preciso que eles admitam, que digam da mesma maneira que adoram mostrar a cara ao mundo como se fossem muito bonitos e dignos de respeito.

Mas não o fazem e nunca o vão fazer.

Uma nota para vocês: O que plantaste é o que estás a colher neste momento.

Tantas vezes digo isso, e nunca foi tão verdade.

 

A dor que eu carrego hoje teve raízes vindas de muitas direções, aos poucos eu vou cortando. E eu, sendo eu, vou cortando até que lhes doa na alma.

Eu vou aprendendo que, se antes não houve compaixão, então eu não lhes devo nada. A minha vida segue em frente, sempre com a questão aos ombros.

Uma questão que ainda não tenho a resposta, a morte ainda espreita e seduz.

 

A depressão é aquela que se esconde, nos cantinhos da sombra. A sombra escura capaz de ser camuflada. A pontinha da escuridão que te toca no ombro quando escondes uma lágrima. E quando dás por ti, a sombra é a tua melhor amiga, a tua única companhia. E tira tudo de ti, tudo.

A Pérola

  Existe uma pérola no fundo do mar, Entre marés e tempestades ela vai ficando sem ar, Há quem diga que quando este poema acabar Ela vai mor...