Quem mais julga, é quem mais deve dar a mão.
No meu
caso foi assim. Sempre que eu mais precisei, os mais chegados eram os mais cruéis.
Como criança,
fui tratada sempre como saco de pancada. Atenção, nem sempre as pancadas eram físicas,
e essas pancadas psicológicas eram as que doíam mais.
A desculpa
que eles dão para o fato de ser uma chorona é esta: sou sensível. Sim, e é verdade, mas é a desculpa que eles dão
pelas humilhações que me fizeram passar. Ou porque eu não arrumava a casa, ou
porque não lavava a loiça, ou porque eu não aguentava com um saco de compras,
ou porque dizia coisas que para eles eram motivos de risota, ou porque passava
demasiado tempo fechada no quarto, ou porque era eu que tinha de aguentar com
tudo e mais alguma coisa porque eles sim, é que sofreram e eu não.
Ora vejamos
algumas recordações:
“Não vales
nada, és uma fraca”
“Não
serves para nada”
“Sai da
minha frente”
E esta
que ouvia com frequência:
“Vai para
o teu pai”
Quem mais
devia dar a mão, quem mais devia entender não o fizeram. E ainda hoje é o dia
em que acreditam que está tudo bem, eu sou uma mulher crescida que conquistou
muita coisa. Mas não é bem assim!
Cresci
com aquele sentimento de inutilidade, que não seria capaz de fazer coisas
simples e que não seria nada na vida. Simplesmente tudo o que fazia estava mal
ou então não era bom o suficiente. E quando estava mal vinham os sermões, e por
vezes ainda gozavam comigo. Bonito, não é? Humilhar o elo mais fraco da casa. Então
agora peguem lá, a minha indiferença para os vossos problemas. Não consigo
sentir o que devia. E a culpa nem é minha.
A consequência
disto tudo, o mal de menosprezar uma criança de tal maneira é que quando forem vocês
a querer algo, não o vão ter dela. Porque seguem a vossa vidinha pensando que
fizeram um bom trabalho, casar, ter filhos e jantares aqui e acolá, que tudo se
esquece e fingimos que nada aconteceu. Mas e então aquelas vezes que me davam
chapadas na cara só porque sim? Aquela vez que berravam comigo porque deixei
cair gordura nas calças e levei tantas com força que fiquei a medo de derramar
apenas água no chão? Ou quando chorava e vocês riam porque achavam piada a
minha cara de choro? Ou simplesmente porque vinham cansados do trabalho e
tinham de descarregar em cima de alguém…
Sou alguém,
eu sou filha, irmã e esposa. Mas não sou mãe. Se Deus quiser um dia. Mas nem sempre
pensei assim. Quantas vezes mostrei medo em ser mãe por não querer ser como a
minha? Nunca tive espaço e coragem para amar um filho. Tudo porque o meu passado
me persegue.
Ainda hoje
é o dia em que qualquer coisa, qualquer defeito, faz-me desesperar por não conseguir
fazer direito. Como se não fosse boa o suficiente. Então eu pego nesses
sentimentos e duvido da minha capacidade de ser mãe. Fui quebrada de uma maneira
desumana e estúpida.
Chegar
até aqui custou bastante de mim, e graças a mim que hoje sou independente e
forte o suficiente para passar por qualquer coisa. Nunca irei obrigar o meu próprio
filho a passar por situações que lhe custará a sua infância. As suas escolhas.
E é assim que eu espero espalhar a minha palavra: o mal só terá um fim se soubermos
amar e dar amor.
Nunca se
deve ridicularizar uma criança. Nunca se deve dizer a uma criança que não serve,
que não vale e que não tem direitos. É uma pessoa inocente que vem ao mundo. Estais
à espera que ela aprenda sozinha?
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